Responsável: Paulo Clemente Sallet
Supervisão: Wagner Farid Gattaz
As alterações da morfologia cerebral na esquizofrenia constituem evidência bem documentada, porém inespecíficas e com significativa sobreposição no valor dos parâmetros morfométricos entre pacientes esquizofrênicos e controles saudáveis. Tais inconsistências nos achados de neuroimagem podem representar diferentes graus de severidade ao longo de um processo patogenético único ou psicoses com diferenças clínicas e/ou etiopatológicas dentro de um espectro esquizofrênico. O objetivo deste estudo foi o de investigar a existência de diversos padrões de alteração estrutural em diferentes subtipos de esquizofrenia, bem como a relação entre alterações estruturais e sintomas clínicos.
Quarenta pacientes esquizofrênicos foram comparados a 20 controles saudáveis, pareados para variáveis sócio-demográficas quanto a medida de estruturas cerebrais (Hipocampo, Planum Temporale, Volume Cerebral e de Hemisférios) e índices morfométricos (Índice de Girificação [GI] e VBR) obtidos por meio de Ressonância Magnética (MRI). Os pacientes foram diagnosticados de acordo com o DSM-IV e a classificação das psicoses endógenas de Leonhard. A avaliação psicopatológica foi obtida mediante as escalas PANSS, BPRS e NSRS.
Pacientes apresentaram redução do pregueamento cortical que pode estar relacionada a anormalidades citoarquitetônicas de origem no neurodesenvolvimento. Este efeito foi mais pronunciado no subtipo Desorganizado (DSM-IV) e na subforma Hebefrênica (Leonhard) e tentou à correlação inversa com sintomas negativos. Por outro lado, o subtipo Paranóide apresentou GI relativamente preservado, sobretudo no hemisfério direito, o que correlacionou com sintomas positivos. Os pacientes esquizofrênicos apresentaram o GI do hemisfério esquerdo significativamente menor do que o GI do hemisfério direito, enquanto que o grupo controle apresentou graus de pregueamento cortical semelhantes entre os hemisférios cerebrais.
Os pacientes apresentaram hipocampo esquerdo significativamente menor do que hipocampo direito. A redução de hipocampo esquerdo correlacionou com severidade de sintomas positivos e negativos.
O aumento da assimetria do PT (PT esquerdo > PT direito) correlacionou com a severidade de delírios e alucinações.
Os pacientes apresentaram um largamento ventricular com distribuição homogênea nos subgrupos, sugerindo um parâmetro não específico de determinados subtipos, e de caráter não progressivo com o decurso da doença.
As formas Sistemáticas de Leonhard permitiram identificar casos com menores volumes relativos de hemisfério esquerdo, doença de início precoce e com maior severidade de sintomas negativos. Entretanto, não houve diferenças quanto aos demais parâmetros morfométricos entre as formas de esquizofrenias segundo a classificação de Leonhard.
Por outro lado, os subtipos do DSM-IV permitiram uma melhor distinção com referências às anormalidades estruturais: tanto a redução de GI quanto o aumento do VBR mostraram-se mais robustos nos subtipos Desorganizado e Paranóide, respectivamente.
As reduções no pregueamento cortical e no volume de hipocampo foram maiores no hemisfério esquerdo. Além disso, as tendências para reversão da assimetria do PT e para menores volumes relativos de hemisfério esquerdo sugerem um maior comprometimento do hemisfério esquerdo na esquizofrenia, possivelmente implicando distúrbio no processo de lateralização cerebral com origem no neurodesenvolvimento.