Antidepressivos

Os medicamentos que denominamos de antidepressivos fazem parte de um grupo bastante heterogêneo de medicamentos com alguns efeitos terapêuticos em comum, o mais importante dos quais o de levar à melhora e remissão de episódios de depressão bem como conseguir evitar novos episódios. Os antidepressivos, apesar do nome, são medicamentos muito úteis em diversas áreas da medicina, não apenas no tratamento da depressão. São, por exemplo, eficazes também no tratamento de diversos transtornos de ansiedade, em pacientes com dor crônica ou ainda na prevenção de crises de enxaquecas.

Embora se conheça bastante sobre as ações destes medicamentos no cérebro e em outros orgãos, não se conhece exatamente como eles contribuem para a melhora da depressão. O que se sabe é que todos os medicamentos atualmente disponíveis denominados de antidepressivos influenciam a atividade das aminas bioativas que atuam em nosso cérebro como neurotransmissores, particularmente a serotonina, a noradrenalina e a dopamina. De modo geral, pode-se dizer que atuam sobre sistemas de células nervosas em nosso cérebro, relacionadas à motivação, ao controle da ansiedade, da depressão e das sensações dolorosas. Esses sistemas de células são regulados, de grosso modo, através de substâncias denominadas de neurotransmissores como as aminas bioativas citadas anteriormente. Os antidepressivos agem também sobre os receptores de acetil-colina e de histamina, responsáveis por parte de seus efeitos colaterais.

Os primeiros antidepressivos produzidos foram os inibidores de monoamino-oxidase (IMAO) irreversíveis como o medicamento Parnate, que surgiram no final da década de quarenta do século XX, entrando em uso clínico na década seguinte.

Apesar de sua grande eficácia e de mais de 50 anos de experiência acumulada, são usados hoje em dia apenas em certos casos mais difíceis, pois possuem sérios riscos (inclusive de vida) se, durante seu uso, fossem ingeridos certos tipos de alimentos (como queijos maduros e conservas, entre outros) ou usadas certas medicações. Existe a categoria dos inibidores reversíveis da MAO, cujo único medicamento disponível é a moclobemida (Aurorix) que não apresenta este problema de interação com medicamentos e alimentos.

No final da década de cinqüenta, foi sintetizada a imipramina (Tofranil), o primeiro medicamento da classe dos antidepressivos tricíclicos, que não apresentavam esses riscos.

Os antidepressivos tricíclicos, embora ainda muito utilizados no Brasil devido ao seu baixo preço, ainda possuem muitos efeitos colaterais (entre outros, boca seca, intestino preso, tendência a aumento de peso, impossibilidade de usá-los em pacientes com alguns problemas cardiológicos). Por isso, continuou-se a procura por medicações mais seguras e com menos efeitos adversos.

Dos antidepressivos “novos”, os mais importantes foram os inibidores de recaptação de serotonina, dos quais o primeiro a ser lançado foi a fluoxetina (Prozac, Eufor entre outros). A seguir, foram criados outros medicamentos, como a sertralina (Zoloft), o citalopram (Cipramil), a paroxetina (Aropax) e a fluvoxamina (Luvox) que compartilhavam do mesmo mecanismo de ação. São medicamentos muito seguros que revolucionaram a pratica psiquiátrica.

Desde então vêm sendo desenvolvidas outras drogas, algumas com maior ação sobre a noradrenalina, outras sobre a dopamina e, ainda outras, que atuam de modo simultâneo sobre dois neurotransmissores. Dentro deste último grupo encontramos alguns medicamentos muito úteis como a venlafaxina (Efexor), o milnaciprano (Ixel) e a duloxetina (Cymbalta). Nenhuma dessas drogas mais novas se mostrou mais eficaz que as antigas. A diferença reside, basicamente, no fato de terem menos efeitos colaterais ou, pelo menos, efeitos colaterais diferentes, de modo que podemos escolher qual o melhor medicamento para o nosso cliente, por exemplo, aumento ou diminuição do apetite.

Todos antidepressivos, além de serem eficazes no tratamento do episódio depressivo, também previnem o surgimento de novos episódios. Esta propriedade faz com que alguns pacientes se julguem “dependentes”, pois podem voltar a ter episódios de depressão quando interrompem o medicamento. De fato, esta recidiva ocorre após 6 semanas da interrupção e é devida à própria história natural da depressão.

Márcio Bernik é médico psiquiatra formado pela FMUSP, doutor em Psiquiatria pela FMUSP e Professor Colaborador Médico do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Atualmente coordena o Ambulatório de Ansiedade do IPQ FMUSP.